22/10/2009

SURPRISE COOKIES

Pra começar hoje, uma receitim bem mineirim.......

Sou leitora compulsiva de tudo. Minha paixão são as revistas especializadas em gastronomia e livros sobre a história da comida ao longo dos séculos. Gosto mesmo e gasto um bom tempo da minha vida lendo. Até quando trabalhava fora, mal me deitava la estava eu com o livro na mão (vocês nem imaginam cada arranca rabo que saia entre eu e meu marido por causa disso, ele morria de ciúmes dos livros). Hoje, apesar de ler todos os dias antes de dormir, divido bem minha paixão (um cadinha pros livro e um cadinho pro benhê). E nas minhas leituras gastronomicas, encontro histórias de pessoas que nada tem a ver com a arte mas que também, assim como nós, foram grandes apreciadores da boa mesa. O post de hoje é sobre Guimarães Rosa, que a primeira vista vocês logo ligaram o nome a literatura, mas ele também tinha seus amores pelas gostosuras da vida. Bem bacana, vale a pena ler.


O GOURMAND DAS GERAIS
Autor de uma obra genial, o escritor mineiro João Guimarães Rosa era também um apreciador da boa mesa.

Joãozito detestava mingau de fubá com manteiga e queijo. Para seu desgosto, o pai, Florduardo Rosa, acreditava que nada era melhor para fortalecer menino franzino. Joãozito sentia nojo, tinha ânsia, recusava-se a engolir a gororoba. Felizmente, a falta do fortificante, não impediu que o garoto magrelo crescesse e se transformasse, mais tarde, em homem do porte de João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores brasileiros, que, em livros como Sagarana ou Grande Sertão: Veredas reinventou a língua portuguesa ao criar uma sintaxe própria, que mistura neologismos, arcaísmos e o falar da gente simples do sertão de Minas Gerais. A vida literária de João Guimarães Rosa é bastante conhecida e já foi tema de incontáveis ensaios e teses acadêmicas. Menos propalada é sua face de amante da boa mesa, que ele desenvolveu a par da intolerância pelo mingau de seu Fulô, como o pai era mais conhecido. Nascido em Codisburgo, pequena cidade entre montanhas, desde cedo o escritor conviveu com os aromas que vinham da cozinha regida pela mãe, Chiquitinha, e outras cozinheiras da família que tudo sabiam sobre segredos culinários ancestrais. Também da venda de seu Fulô, que ficava na parte da frente da casa, vinha o cheiro misturado de cereais, carne-de-sol e especiarias. Aliás, foi ali, atrás do balcão, que o garoto aprendeu a gostar de histórias enquanto ouvia a conversa de tropeiros, viajantes e moradores da cidade que entravam na venda para comprar alimentos, roupas, ferramentas ou uma simples dose de cachaça, e aproveitavam para jogar um tanto de conversa fora. Como bom mineiro, Rosa jamais negou seu gosto pelo ensopado de frango com quiabo, pela costelinha com mandioca ou pela carne-seca desfiada, prato que considerava alta-gastronomia. Os doces eram outra paixão, principalmente os de calda, os quais, em suas palavras, “que não convém deixem de ser orgulho próprio e um dos pequenos substratos do bem-querer à pátria”. Não mudou de opinião nem mesmo quando trocou a carreira de médico pela diplomacia e entrou em contato com a cozinha de outros países. Escrevendo ao irmão, de Hamburgo, seu primeiro posto, as impressões iniciais em relação à culinária alemã não eram das melhores: “Depois que se abriu aqui um restaurante italiano, libertei-me da detestável comida da terra, e devoro spaguetthi e maccheroni, diariamente, em doses tremendas”.


Que não se pense, contudo, que Rosa era avesso aos paladares exóticos. A curiosidade de saber mais sobre todos os assuntos sempre foi sua força motriz ao longo da vida – a mesma vontade que o levou a aprender holandês, Frances e alemão ainda criança e, mais tarde, a conhecer novos mundos ao abraçar a carreira diplomática – e era esse desejo de novidade que o induzia a experimentar os pratos típicos de cada lugar que visitava. Sua filha mais velha, a escritora Vilma Guimarães Rosa, autora do livro Relembramentos (Editora Nova Fronteira – 2008), fundamental para quem quer conhecer o autor na intimidade, conta que, ainda bem jovem, morou em Paris com o pai quando ele era conselheiro na embaixada brasileira: “Papai fazia questão que eu provasse novos pratos, pois achava que essa era a melhor maneira de se conhecer a cultura de um povo”. Um dia, Rosa a convidou para comer as famosas lagostas de Houlgate, cidade litorânea da Normandia. Vilma gostou tanto que quis mais, o escritor deu boas risadas e explicou que, em nome da etiqueta, lagosta era um prato que não se repetia. Mesmo assim, o crustáceo voltou a mesa. “Precisei me conter para não comer uma terceira”, diverte-se ela. Quando criança, em visitas ao Itamaraty, Vilma costumava ser recebida com geléia de mocotó e doce de leite que Rosa tirava do cofre de seu gabinete. “Meu pai e eu sempre estivemos muito ligados pela gula”. Nas cartas que enviava aos parentes em Minas Gerais, Rosa vivia pedindo receitas e guloseimas. Em uma delas, dirigida a seu Fulô, escreveu no postscriptum: “estou arranjando um jeito de encomendar, por um contínuo daqui, que mora no subúrbio, suã de porco e tripinha pra torrar. Mas, saudades mesmo, é da notável comida que a mamãe sabe fazer!”. A culinária aparece também em sua obra. Antes de escrever Grande Sertão: Veredas, Rosa fez a famosa viagem pelo interior mineiro, no lombo da mula balalaika, acompanhando uma boiada conduzida por um bando de vaqueiros. A intenção era conhecer de perto a paisagem dos sertões, os costumes e falares de sua gente. Dona Antonieta, hoje octogenária, acolheu o escritor em sua fazenda em um dos “pousos” da comitiva. Ela lembra que Rosa estava coberto de pó da longa viagem, mas preferiu comer antes de banhar-se. “E fez questão de ranchar a mesma comida que os boiadeiros: arroz, feijão, carne-seca, abóbora e quiabo. Ele comia muito direitinho, sabe?”.
Tudo que viu e ouviu durante a jornada, Rosa anotou em cadernetas que levava ao pescoço, e os hábitos alimentares dos sertanejos não passaram desapercebidos, tanto que estão diluídos pelas quase 500 páginas de Grande Sertão: Veredas. Riobaldo, o narrador do romance, descreve assim o início de suas aventuras pelos campos das Gerais como integrante de um bando de jagunços: “Jõe Engrácio reparou na quantidade de comidas e mantimentos que agente tinha reunido, em tantos burros cargueiros: e que era despropósito, por amor daquela fartura – as carnes e farinhas, e rapadura, nem faltava sal, nem café. De tudo”. Qualquer semelhança com a própria experiência de Rosa por certo não é coincidência. Vilma Guimarães Rosa ressalta que o pai adorava a culinária singela de Minas, mas fazia questão de que tudo fosse servido com bom gosto, em pratos de porcelana, travessas de prata e copos de cristal. “Era um homem sofisticado. Minha mãe, Lygia, brincava dizendo que ele preferia comer casca de batata em prato de porcelana fina à própria batata num prato qualquer”. O paladar simples, mas exigente de João Guimarães Rosa, pode ser resumido em suas palavras: “Nossos, bem nossos, são o doce de leite e o desfiado da carne-seca. Meu – perdoem-me – é aquele pato mineiro verdadeiramente principal. Guisado de frango com quiabos e abóbora-d’água (ad libitum o jiló) e angu, prato em aquarela, deslizando viscoso como a vida mesma, mas pingante de pimenta”.


Museu Casa Guimarães Rosa (para os mineirinnnn)
Rua Padre João, 744
Cordisburgo 35780-000
Tel.: (31) 3715-1425
Horário de visitação: de segunda a sexta, das 9h às 17h
Taxa: R$2,00 - Agendamento de visitas: Ronaldo Alves
Empresas de ônibus: Possatur Transportes Rodoviário (31) 3201-2553
Sertaneja Rodoviário (31) 3201-2604
Setelagoano (31) 3201-5277



Matéria sobre o Rosa: Gula - Nov/2008.

E como prometido as minhas amigas, segue abaixo a receita do quitute que levei na casa da Mari. Dizem as más línguas que estava bom demais (modéstia a parte eu também achei, hehehe). Recipe from Martha Stuart.

Surprise Cookies

Ingredientes: 1 3/4 de xícara de farinha de trigo, 3/4 de xícara cacau em pó, 1/2 colher de chá de bicarbonato de sódio, 1/2 colher de chá de sal, 1/2 de xícara manteiga s/ sal amolecida, 1 de xícara açúcar, 1 ovo grande, 1/2 de xícara de leite, 1 colher de chá de extrato de baunilha.

Para o merengue italiano: 80ml de claras, 168g de açúcar, 66ml de água.

Finalização: chocolate meio amargo derretido para cobrir.

Faz Assim: Prepara o merengue. Bata as claras em neve e reserve. Leve ao fogo o açucar com a água e faça uma calda em ponto de fio a 112°C. Ligue novamente a batedeira e batendo, vá despejando a calda de açúcar logo após desligar o fogo. Bata até que o merengue esteja frio. Reserve em geladeira.

Os cookies: Numa tigela misture a farinha, o cacau, o bicarbonato, o sal, misture e reserve. Em outra tigela bata a mantiga com o açúcar até formar um creme. Adicione o leite, o ovo e a baunilha e bata até misturar tudo muito bem. Adicione a mistura de farinha e bata bem. Numa assadeira com papel manteiga untado e enfarinhado, vá colocando colheradas dessa massa, tentando seguir o mesmo tamanho em todas. Leve assar em forno pré-aquecido a 180°C por 12 minutos. Retire do fogo e com o auxílio de algo redondinho (eu usei um pedaço de cabo de vassoura que tenho na cozinha e me serve de molde pra várias coisas) faça uma pressão no meio de cada cookie delicadamente, para que fique um espaço para o merengue. Volte ao forno por uns 3 minutos para acabar de assar. Retire do forno, transfira para uma grade e deixe esfriar completamente.

Quando estiverem completamente frios, pegue o merengue e com o auxílio de um saco de confeitar, de uma pitangada de merengue em cima de cada cookie.


Agora, derreta o chocolate meio amargo (eu usei chocolate ao leite pra ficar mais docinho, como a massa já é feita com cacau, acho que com um chocolate mais docinho por cima fica melhor) com o auxílio de uma colher de sobremesa, vá derramando sobre o merengue, apenas até cobri-lo. Não pode ficar nem um pedacinho branquinho de fora. Leve a geladeira apenas para endurecer o chocolate e pronto. Delicie-se com essas negras surpresas deliciosas!! Geladinho eu gosto mais.

E para relaxar nossos feitos internacionais na cozinha, um vídeo com nosso rei da pornochancchada culinarística, Paulinho...the man! Com vocês, o Frango Total Flex!

21 comentários:

Marcia Gullo Tiberio disse...

Criatura, esqueci de te falar...voce tem assinatura de alguma revista da Editora Abril?????
Acessa esse link e tem uma promoção pra ganhar o GRANDE LIVRO DE CLAUDIA.
https://www.clubedoassinanteabril.com.br/clube/clubeAssinante.do?action=inicio

Acho que ainda da tempo.

bejinhos

Mari disse...

Oliver, que biscoitinhos mais lindos e apetitosos. Devoraria uns 100 fácil fácil. beijos!

Marly disse...

Carol,
Amo Guimarães Rosa e penso que ele só não levou um Nobel por causa da línguagem difícil de ser traduzida para outras línguas. Digo isso porque nos livros dele a gente encontra as estórias, como em todos os outros, mas também filosofia, sabedoria e pontos para reflexão. Eu estava esperando mesmo a receita dos surprise cookies, que parecem ser deliciosos!
Beijinho

Abobrinhas na Cozinha disse...

Lindos!!!!! Parabéns!!!
Tô aqui babando nessas fotos! rsrsrs
Beijocas!

Cherry Blossom disse...

Eu não mantenho o meu olhar somente sobre o Brasil, mas toda vez que leio sobre ele me apaixono cada vez mais...O Brasil é sempre lindo, lindo...
Cookies estilosos esses, fico cá imaginado a sorte de quem provou lá no encontro!
beijo!

ameixa seca disse...

Aqui também temos bastantes escritores cujo pecado principal era a gula he he
Muito bom esse texto acerca dele :)
Essas bolachinhas também devem ter estado super boas. Adoro merengue.... ficaram lindas!

Fabiana disse...

Meu Deus!!!
Essa sua receita é fantastica!
agrada só de olhar.
Adorei a combinação dos cookies com o merengue.
Com certeza, essa eu vou testar.
bjs

a Trofa tem cozinheira disse...

UAUA!!! parece super BOM!!!

Natália Eleutério disse...

Adorei estes cookies que são super gulosos, bjs.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Iliane disse...

adorei ler Guimarães Rosa!!adoro tudo que ele escreveu..eu já fui um dia como você..devorava livros..ainda faço isso..mas..eu era uma loucura mesmo!!tudo que caisse em minas mãos eu devorava..e ainda tinha um pessimo defeito..que os anos fizeram mudar..:tinha ciumes de meus livros!!..mas..eu amei mesmo foi ver a receita daquela delicia do encontro na Mari!!!numca imaginei como seraim feitos!!..parabens amiga..eu sou pessima nessa arte..bjus..li

Marcia Gullo Tiberio disse...

Oi querida, tem um selinho pra voce la no blog da gullo, ta bom??? espero que goste.

beijinhos

http://blogdagullo.blogspot.com/2009/10/mais-um-selinho-pro-nosso-blog.html

Sabrine d'Aubergine disse...

Ciao! Che bei biscoitinhos! Ti copio la ricetta. Grazie! Baci dall'Italia
Sabrine

Claudia disse...

Carol,

linda postagem, Guimarães é uma maravilha, único. Mas esses biscoitinhos ficaram um arraso, trabalhozinhos, mas devem ser deliciosos.

Beijos,

C.

minhacasaeumaviagem.blogspot.com disse...

Oi!!!!!
Mas que pecado de blog...me deu agua na boca.
Adoro cookies. Esses dias fui tentar fazer, ficam duros q nem pedra!
Diferente de vc, eu sou uma negação na cozinha...me dá até tristeza rs
Eu estou de passagem sim, meu marido veio para trabalhar,e em dezembro já estou de volta...
Adorei a visita, vou me tornar seguidora, quem sabe eu não aprendo um pouco aqui c vc!!
bjinhos

Anônimo disse...

Essas lindas cookies davam muito jeito cá em casa! Tanto xiclate a picar-nos o olho! hehehe:)

Luciana B. disse...

Carol, simplesmente adorei este post... Guimarães Rosa, surprise cookies e o filminho do Paulo foram demais! Um beijo,

Fla disse...

Guimarães Rosa é tudo né?!
E esses biscoitinhos devem ser tudo de bom!!!
Beijos

Lourdes Sabioni disse...

Misericórdia!!! Cê tá parecendo o baiano que bota farinha no macarrão!!!KKKKKK...Guimarães, cookies e uma tira mineiríssima!!!
Só uma Carol pra misturar tudo isso!!!
Bjs

Nana disse...

Eu gostei desses cookies!!!!
Flor, eu morro de rir com esse programa, mas só assisto quando a net libera o canal hahahaha
Pobre é que é.
Bjsss

inspirações da Jô disse...

Gostei muito de conhecer esse outro lado de Guimarães Rosa, e mais ainda esses cookies que certamente estão irresistíveis!!!!!!!
Beijos!!!!!!!